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Estudos evidenciam que aproximadamente 75% dos indivíduos que cometeram suicídio procuraram os serviços de APS nos meses anteriores 1. Mas, como o suicídio é carregado de valores morais e religiosos negativos, as pessoas muitas vezes têm medo de falar sobre o tema e grande parte não falará abertamente sobre seus pensamentos suicidas se não for perguntada 1 2.

Muitas vezes os profissionais de saúde têm receio de perguntar ao paciente sobre ideação suicida e de debater o assunto, por medo de acabar “estimulando” o ato. Esse pensamento é incorreto, pois sabe-se hoje que o risco de suicídio é identificado conforme a frequência com que é questionado pelos profissionais e que conversar sobre o tema, explicando que são pensamentos recorrentes para a maioria das pessoas e mais ainda para aqueles que passam por dificuldades pode ser bastante terapêutico 1.

Assim, o primeiro passo seria investigar ideação suicida, planejamento atual e acesso aos métodos, para tentar avaliar a gravidade da ideação suicida. Vale a pena investigar se há tentativas prévias recentes. Este é o maior indicador de risco 3. Entretanto, não devemos subestimar o risco em pacientes que nunca tentaram previamente. Devemos escutar atentamente o paciente, sem qualquer preconceito (inclusive religiosos) e nunca desqualificar seu sofrimento 3, pois isso pode afastá-lo do profissional. Após esse passo, outras ações podem ser realizadas. Veja fluxograma abaixo para casos em que a ideação suicida ocorre em processos depressivos graves 1:

 

No caso de risco de suicídio, o fornecimento de antidepressivos (principalmente tricíclicos) deve ser feito em pequenas quantidades ou ficar em posse de um cuidador 3. Essa orientação se deve ao fato de os antidepressivos (em especial os tricíclicos) oferecem risco real de vida em caso de superdose. 

Para combinar que um cuidador ficará de posse dos medicamentos, o mais adequado é solicitar ao paciente que convoque uma pessoa à sua escolha (de preferência alguém de sua residência). Além de combinar que esse cuidador tomará conta dos medicamentos para o paciente (enquanto durar o risco de suicídio) devemos pactuar com o paciente uma conversa franca com o cuidador, onde este será informado do risco de suicídio. A ideia aqui é ativar uma rede de apoio e organizar uma vigilância maior do paciente, nos casos em que esse vá ficar em casa e não em internação. 

O profissional de saúde deve dialogar com o paciente e seus cuidadores (preferencialmente mais de um) e pactuar que o paciente avisará caso entre em uma situação em que o suicídio pareça iminente. Essa estratégia costuma reduzir as tentativas de suicídio, uma vez que apenas por ter uma pessoa que o acolha e converse com o paciente no momento de uma ideação suicida mais intensa, os pacientes parecem diminuir o desejo suicida. Ainda nessa linha, é necessário colocar a ESF à disposição para atendimento em demanda espontânea no caso de uma necessidade como essa se dar em horário comercial e quando o cuidador não esteja acessível. 

Essas são apenas algumas orientações iniciais, mas o tema é complexo e existem protocolos elaborados que nos ajudam a abordar essa situação. Assim, recomendo a leitura do material disponível no link abaixo, para que você e sua equipe estejam seguros da melhor forma de conduzir esse caso.

 https://subpav.org/download/prot/Guia_Suicidio.pdf

Referências

1 – GUSSO, Gustavo D. F., LOPES, Jose M. C. Tratado de Medicina de Família e Comunidade – Princípios, Formação e Pratica. Porto Alegre: ARTMED, 2012.

2 – Rio de Janeiro., Avaliação do Risco de Suicídio e sua Prevenção – Coleção Guia de Referência Rápida. PREFEITURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE – SMS. Superintendência de Atenção Primária – Versão Profissional Série F. Comunicação e Educação em Saúde SMS/RJ – PCRJ © 2016

3 – Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica.¿Saúde mental / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – Brasília : Ministério da Saúde, 2013