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É muito comum, escutar pessoas com diabetes, relacionarem esse agravo como de ordem emocional. Entretanto, não existe diabetes emocional. Existem 3 tipos de diabetes: tipo 1, tipo 2 e gestacional (Departamento de Atenção Básica do Ministério da Saúde, 2013).  Mas as emoções interferem no controle da glicemia, porque quando se vivencia situações de estresse e ansiedade são liberados diversos hormônios, como cortisol e adrenalina, intensificando a necessidade de glicose pelas células. No entanto, o nível de insulina não aumenta. Então, a glicose não consegue entrar nas células, elevando a glicemia no sangue.

A emoção para Damásio (2000) é um estado afetivo intenso, decorrente da reação do indivíduo a estímulos internos ou externos, consciente ou inconsciente, funcionando como sensores entre nós e as circunstâncias, entre a nossa natureza e as exigências do ambiente e auxilia na capacidade de sobrevivência fisiológica e social. As emoções afetam o funcionamento fisiológico, humor, interferindo na qualidade dos pensamentos, sentimentos e comportamentos. Quando a emoção transborda de forma intensa, o indivíduo pode apresentar dificuldade para modulá-la, provocando respostas comportamentais disfuncionais que podem trazer consequências desadaptativas para a vida. Diante disso, é comum querer eliminar as emoções que trazem desconforto, como: raiva, medo, tristeza. No entanto, é impossível eliminar as emoções, mas é preciso reaprender a lidar com as mesmas.

O manejo das emoções é algo complexo, principalmente, para as pessoas com diabetes que precisam incluir a rotina de cuidados com esse agravo, no turbilhão de pensamentos, sentimentos e tarefas cotidianas. A sobrecarga com a rotina de cuidados com o diabetes (planejamento alimentar, administrar medicações, consultas médicas frequentes e preocupações com as complicações do diabetes) pode gerar estresse, despertando ambivalência nos pensamentos e sentimentos, fazendo com que os portadores desse agravo, oscilem entre aceitação e negação da  diabetes. A ambivalência dos sentimentos e dos pensamentos pode gerar instabilidade emocional. Dessa forma, os portadores de diabetes podem apresentar dificuldades na manutenção do controle da glicemia.

Na escuta psicológica dos usuários do Cedeba com diabetes, aparecem os seguintes relatos: “quando fico ansioso, costumo comer muito doce”; “quando fico triste, fico tão pra baixo, perco a fome e não consigo comer”; “quando fico com raiva, fico tão perdido, que esqueço de usar as medicações”. Através desses breves relatos, sem excluir a complexidade da subjetividade humana, percebe-se a interferência das emoções no humor, fazendo com que estes usuários atuem com comportamentos disfuncionais que podem comprometer o controle da glicemia, já que, na primeira situação se apresenta risco elevado para hiperglicemia, na segunda situação, o risco seria de hipoglicemia e na terceira situação, hiperglicemia, seguida de risco elevado para evoluir com cetoacidose diabética. Com a manutenção desses padrões disfuncionais, eleva-se o risco de os mesmos desenvolverem complicações futuras e assim comprometer a saúde e qualidade de vida.

É essencial que cada sujeito, inclusive as pessoas com diabetes, aprendam a observar as suas reações emocionais, identificar/nomear a emoção que está ativada de forma intensa, passar a observar como fica a qualidade dos pensamentos, sentimentos, do seu humor, qual o comportamento mais frequente costuma manifestar. É preciso reconhecer as situações externas (problemas no trabalho, na família, na vida conjugal, financeiros, etc) e internas (lembranças passadas desagradáveis e preocupações com o futuro) que funcionam como gatilho e podem ativar uma determinada emoção, fazendo com que a mesma transborde, gerando reações comportamentais disfuncionais (reações impulsivas/explosivas e ou se refugiar em estratégias de fuga/evitação).

É necessário observar as situações cotidianas que funcionam como gatilho, provocam ativação emocional intensa, para conseguir modificar, gradualmente, o padrão de comportamento disfuncional e desenvolver estratégias adaptativas para manter o controle glicêmico, mais próximo possível dos parâmetros médicos, diminuindo os riscos futuros para desenvolver complicações associados ao Diabetes

 

Referência bibliográfica:

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 160 p.: il. (Cadernos de Atenção Básica, n. 36) ISBN 978-85-334-2059-5

António DAMÁSIO, O Mistério da Consciência: Do corpo e das emoções do conhecimento de si. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Elaboração do texto: Ana Emília Lisboa Ramos

Minicurriculum

Graduada em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia. É pós-graduada em Terapia Cognitiva Comportamental pelo Instituto Brasileiro de Neuropsicologia e Ciências Cognitivas. Desde 2012, integra a equipe do Serviço de Psicologia do Cedeba: Centro de Referência Estadual para Assistência ao Diabetes e Endocrinologia, realizando psicoterapia individual para pessoas com obesidade, diabetes melitus tipo 1 e 2, além de executar trabalhos de psicoeducação em grupo e supervisão de estágio curricular para estudantes de Psicologia.