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Na adesão ao tratamento da tuberculose, existe a parte que cabe ao usuário, mas existe também a parte que cabe à equipe, e você está se movimentando para isso. Parabéns. Vocês já perguntaram ao usuário o motivo de ele não querer tratar? É importante tentar identificá-lo, pois esse é um dos passos para a equipe conseguir motivá-lo. Ele se mostra aberto quando vocês o acessam? Foi ofertado o tratamento diretamente observado (TDO¹)?

Sem dúvida a equipe de Saúde da Família deve se envolver e ser a maior protagonista nesse caso. A forma para construir a adesão ao tratamento é se aproximando desse sujeito no seu território, identificando possíveis parcerias (na família, na vizinhança, no trabalho) e cuidando-o na sua totalidade. Por exemplo, considerando que faz um uso abusivo de substâncias psicoativas, caberia um diálogo com ele sobre como ele se sente, desde quando começou a beber, se pensa em parar, se se sente triste ou ansioso, o que lhe dá vontade de beber e usar a outra droga etc.

A adesão ao tratamento só se constrói em conjunto com o usuário.

A experiência da doença, a cultura, a informação que dispõe sobre os riscos da tuberculose não tratada, os efeitos colaterais dos medicamentos, o uso concomitante de outras substâncias psicoativas podem ser fatores que façam com que o usuário não esteja tratando a tuberculose. Não existe legalmente uma forma de “obrigá-lo” a tratar. Ele tem autonomia em não tratar, mesmo que isso represente um risco para as outras pessoas da sua família e da comunidade. A autonomia dos sujeitos sempre prevalecerá a qualquer indicação clínica. Como a equipe tem  responsabilidade sanitária, é importante intensificar as informações sobre a tuberculose na comunidade e acompanhar os contactantes de perto.

Infelizmente, ainda é muito alta a taxa de abandono do tratamento de tuberculose no Brasil. Em um estudo², as principais causas de abandono foram: a acessibilidade, o uso de drogas lícitas e ilícitas, a baixa escolaridade, a coinfecção tuberculose/HIV, a baixa classe econômica e os efeitos adversos das medicações. Os principais fatores de adesão encontrados foram a oferta de medicação, a consulta em menos de 24 horas e a oferta de vale transporte e cesta básica ou vale alimentação.

A maioria dos estudos³ sobre o tema mostram que os profissionais de saúde negam a legitimidade dos comportamentos dos usuários que diferem das suas prescrições. Agindo
assim, distanciam-se das ações e razões dos pacientes, julgando-os e rotulando-os, em vez de conhecê-las e entendê-las.A natureza, os sentidos e os determinantes do comportamento de não-adesão são complexos e difíceis de ser entendidos. Por isso, há que se considerar essa questão sob outra ótica, levando em conta a subjetividade do paciente, bem como suas necessidades e dificuldades, mais do que a precisão com que ele segue as recomendações.

As/os ACS devem permanecer realizando visitas domiciliares ou no território, de forma a acompanhá-lo de perto, identificar possíveis pioras, e também construir vínculo – para poder, então, trabalhar com essa adesão ao tratamento.

Referências

1 – Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica.Tratamento diretamente observado (TDO) da tuberculose na atenção básica : protocolo de enfermagem / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância Epidemiológica. – Brasília : Ministério da Saúde, 2011.

2 – Santos Junior, GM e cols. TUBERCULOSE: ADESÃO AO TRATAMENTO E OS FATORES QUE DESENCADEIAM EM ABANDONO. Revista Enfermagem Contemporânea. 2016 jul/Dez;5(2):284-292.

3 – Reiners, AAO e cols. Produção bibliográfica sobre adesão/não-adesão de pessoas ao tratamento de saúde. Ciência & Saúde Coletiva, vol. 13, núm. Su2, dezembro, 2008, pp. 2299-2306.

Teleconsultoria respondida por: Lua Sá Dultra, médica de família e comunidade.