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Escrevemos essa coluna no dia 13 de agosto de 2020, em que já ultrapassamos 104.000 mortes oficialmente notificadas pela COVID-19 no Brasil.

Desde o início da pandemia somos convocados a refletir sobre o nosso modo de viver nesse planeta. Tem sido um grande desafio, individual e coletivo. Especialistas afirmam que uma gama de vírus pode “saltar” para a espécie humana, e que isso guarda estreita relação com a degradação do meio ambiente, consequência, por sua vez, do modo de vida do nosso tempo: consumo induzido, irracional e alienado (para os que podem, enquanto milhares passam fome), coisas feitas para não durar, industrialização e produção dos alimentos em larga escala (esgotando os solos, poluindo a terra, as águas, o ar e os próprios alimentos), etc. Destruindo biomas e provocando respostas reativas da Natureza, esse tem sido o nosso rastro pelo mundo desde a primeira Revolução Industrial. Pisamos na Lua, tateamos Marte e miramos o Sol, enquanto destruímos a Terra.

Isolados em casa, vivemos um tempo nunca imaginado. E justamente por isso, somos convidados a pensar todos os dias, pois já não é possível continuar no mesmo ser e fazer anteriores, que de “normais”, tinham apenas os nomes. O corre-corre do dia a dia deu lugar a uma nova rotina. Não menos pesada, mas um outro jeito de viver. Nosso ímpeto voraz foi acuado a uma desaceleração. E a desaceleração é um convite compulsório para re-pensar a vida, e também por isso (e não somente por razões econômicas), ela se torna tão…temerosa! E nós, cirurgiões-dentistas (CDs) temos um apego especial pela velocidade, pela “alta rotação”! Aquele motor que nos ajuda a abrir um dente para liberar conteúdos mortos ou irrecuperáveis (conferindo alívio), mas também muito utilizado um como “motosserra” para derrubar irreversivelmente a naturalidade dos sorrisos que transparecem a dentina adulta ou senil…  Estaríamos buscando a brancura dos dentes de leite, promessa falsa e artificial de eterna juventude? Talvez uma lacuna de amadurecimento psíquico…

No começo da pandemia essa desaceleração era anunciada sob a forma de se manter apenas os “serviços essenciais”. E essa foi uma palavra que passou a ressoar de modo diferente em nossas vidas: afinal, o que é essencial? Essa é uma pergunta de cunho existencial, mais uma vez, individual e coletivo. Aliás, temos sido afrontados a admitir que não há vida sem o coletivo! Mas esse não é um aprendizado simples, e nem rápido. Não por coincidência, o próprio Conselho Federal de Odontologia publicou no dia 12/08/2020 uma nota oficial refutando o reforço das orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre a manutenção, apenas, dos atendimentos de urgência e emergência durante a pandemia (publicada em 03/08/2020). Será que o essencial é realmente “invisível aos olhos”, como nos provoca Saint-Exupéry?

Se o essencial parece ser da ordem da subjetividade, olhemos, então, para o que diz a Ciência, tão costumeiramente avessa às subjetividades. Já a partir de fevereiro começaram as primeiras publicações sobre a presença do Sars-Cov 2 na saliva e os potenciais riscos da nossa profissão diante da produção de aerossol. Em meados de julho, 239 especialistas provenientes de 32 países solicitaram que a OMS reconhecesse o potencial de transmissão do vírus por via aérea, o que foi feito sob a forma de alerta e prevenção.

Voltando à essencialidade das coisas e dos nossos papéis no mundo, qual é mesmo a essência da Odontologia? Independente da pandemia, já não estaríamos, há algumas décadas, nos afastando da essência, rumo à aparência? Vale aqui uma leitura sobre o Mito da Caverna, de Platão… Estaríamos seduzidos e ludibriados pelas sombras?

Joguemos, então, um pouco de luz nessa “conversa”… Luz para “Mirar La Salud”, inspiremo-nos em Hugo Rossetti, um dentista argentino que se volta para a essência da odontologia, que é a vida e a saúde. Em seu livro “Salud para la odontología”, o pesquisador nos provoca e nos convida a repensar a prática odontológica, a partir de um retorno. O retorno à saúde. Segundo o autor, “estamos enfermos” e o nosso olhar se volta compulsivamente ao “sacar y poner em la boca”. Não temos olhos para o ser humano, para sua vida, suas escolhas, suas possibilidades, seu futuro.

Fazer saúde é mergulhar no “outro”. É compreender as razões de termos ou não saúde. É ter responsabilidade com o viver e adoecer humanos. Adoecer este, coletivo e determinado pelas nossas escolhas ético-político-sociais e econômicas.

Hugo Rossetti toca fundo e provoca… ele promove uma revolução na ciência odontológica, abrindo caminhos para repensar e fazer diferente. Ele propõe a retomada do essencial em saúde. Mas, o que é o essencial na odontologia? E por quê?

O autor dialoga com a teoria da determinação social em saúde e com a BIOética no cuidado, fazendo um convite à odontologia, qual seja, um projeto de saúde infanto-maternal, como uma resposta humana e ética à vulnerabilidade das pessoas, nos diversos momentos do seu ciclo de vida. Trata-se de uma proposta cujo alicerce está na autonomia e “empoderamento” do indivíduo, de sua família, e de sua comunidade.

A proposta de Hugo é extremamente simples, e por isso tão provocante. A escola, para o autor, se constitui no locus primordial de trabalho da (o) cirurgiã (o)-dentista. Para tanto, ele só deve carregar em sua valise tecnológica: escovas, creme dental, flúor-gel e muita disposição para aprender com a comunidade escolar.

Pois bem, em tempos de pandemia tivemos que repensar. Nesse processo, cabe a audácia de reaprender e partilhar conhecimentos para a reorganização de uma nova odontologia.

O “novo fazer” passa por uma diminuição radical da “tecnificação” profissional da odontologia, e esse processo é muito mais desafiador quando trabalhamos numa equipe multiprofissional na Atenção Básica, por exemplo. A odontologia em sua trajetória recente no SUS tem errado em não estar presente enquanto equipe de SAÚDE. É contraditório, mas é real. Temos muito a aprender e podemos começar quando estivermos preparados para entrar, de fato, na engrenagem de uma equipe de saúde.

E para tanto, o primeiro passo é entender em que contexto ético-político-social-econômico estamos vivendo. É preciso nos permitir sair do casulo odontológico e nos transformar! A participação da(o) CD nas ações de saúde durante (e sempre!) a atual pandemia passa pela realização do cuidado integral à saúde da população adscrita, com atenção especial às famílias e indivíduos expostos a riscos e vulnerabilidades maiores.

Nesse momento a Unidade de Saúde é o locus principal de contato, de vínculo, de aliança com a comunidade. A busca ativa de indivíduos e famílias de risco deverá estar sistematicamente estabelecida, e a(o) CD é peça importante no processo de priorização de situações a serem acompanhadas pela equipe.

O trabalho é de vigilância em saúde e, portanto, extremamente desafiador, já que pressupõe a incorporação de diversas racionalidades, inclusive ações de promoção de saúde, utilizando-se de diversos meios tecnológicos digitais, redes sociais, rádios comunitárias, entre outros. Nesse processo, é essencial a realização da busca ativa de internações e o acompanhamento das famílias e da comunidade em adoecimento.

É atribuição da(o) CD “participar do acolhimento dos usuários, proporcionando atendimento humanizado, realizando classificação de risco, identificando as necessidades de intervenções de cuidado, responsabilizando-se pela continuidade da atenção e viabilizando o estabelecimento do vínculo” (PNAB, 2017). Também estão previstas na Política Nacional de Atenção Básica (PNAB, 2017) uma série de atribuições comuns aos profissionais da equipe de AB, dentre elas, a participação na definição de fluxos assistenciais na Rede de Atenção à Saúde no âmbito do SUS (RAS) e a coordenação do cuidado, “mesmo quando necessita de atenção em outros pontos de atenção do sistema de saúde”. Na pandemia, esta é uma atribuição crucial pois, é o olhar da equipe que poderá identificar prioridades de atenção e salvar vidas!

O trabalho de uma equipe de AB é complexo, desafiador, e muitas vezes, inusitado. A proteção da saúde numa perspectiva territorial ganha contornos de alta responsabilidade, quando a realização de atenção domiciliar (ou em Instituições de Longa Permanência (ILP), abrigos) é imprescindível. Sabemos que não estão sendo garantidos a muitos profissionais, em diversos municípios do país, os meios e instrumentos de biossegurança. Daí, a fundamental importância da presença e atuação das instâncias do Controle Social, no sentido de respaldar a equipe nesse processo. Nas horas mais difíceis nossas dívidas parecem maiores: o que fizemos com a possibilidade legal de implantar os Conselhos Locais de Saúde?

Ainda é preciso destacar que a odontologia, como parte da equipe de AB, deverá realizar trabalhos interdisciplinares e em equipe, integrando áreas técnicas, em consonância com as necessidades e demandas da população. Ou seja, podemos ocupar diversos lugares. Podemos e devemos, por exemplo, participar ativamente nas campanhas de vacinação, nas barreiras sanitárias, nas reuniões de equipe (que tentam implantar novos protocolos, rotinas e fluxos). Quantas vezes ouvimos: “mas isso é trabalho para dentista? Isso não é desvio de função?” Fazer-nos presentes para fazer-nos também necessárias(os) e, quem sabe então, sermos reconhecidos como um serviço essencial em saúde.

Para finalizar, voltamos ao título dessa coluna para refletir sobre algumas técnicas. O que é possível fazer na AB “sem o alta rotação”? Considerando que uma das maiores ameaças do atendimento ambulatorial seja a produção do aerossol, talvez seja o momento de utilizar (mais, ou muito mais) o Tratamento Restaurador Atraumático (TRA ou ART) com Cimento de Ionômero de Vidro (CIV) para o controle de lesões cariosas. Trata-se de um procedimento simples, rápido e que cumpre uma função terapêutica importantíssima, até que se possa restaurar “definitivamente” os dentes acometidos. Para a dentição decídua (dependendo da localização da restauração) o CIV nem tem sido mais considerado apenas como um material temporário, podendo ser usado tanto em restaurações como selantes, contribuindo para um melhor controle da doença (aliado a outras medidas). Outro recurso importante e bastante utilizado por Dr. Hugo Rossetti é aplicação do Diaminofluoreto de prata nas fóssulas e fissuras de dentes posteriores, o velho e abandonado “cariostático”! Bem… Mas para utilizá-lo precisamos, antes, trabalhar nossos preconceitos: as fissuras ficam escurecidas. No nosso mundo das sombras, a estética tem sido mais importante que a Ética. Para utilizá-lo, CDs e comunidade precisam conversar de forma muito sincera e realista, sobre o que significa uma (um) CD cuidar de 8 mil pessoas (pois esta tem sido a média, na Estratégia de Saúde da Família). Papéis e técnicas…

Sair das sombras, cortar menos e preservar mais: um chamado para todas, todos e todes ! No micro e no macro, no individual e no coletivo, dentro e fora! Terminamos com Boaventura dos Santos, sobre esta pandemia:

Só com uma nova articulação entre os processos políticos e os processos civilizatórios será possível começar a pensar numa sociedade em que a humanidade assuma uma posição mais humilde no planeta que habita. Uma humanidade que se habitue a duas ideias básicas: há muito mais vida no planeta do que a vida humana, já que esta representa apenas 0,01% da vida existente no planeta; a defesa da vida do planeta no seu conjunto é a condição para a continuação da vida da humanidade. De outro modo, se a vida humana continuar a pôr em causa e a destruir todas as outras vidas de que é feito o planeta Terra, é de esperar que essas outras vidas se defendam da agressão causada pela vida humana e o façam por formas cada vez mais letais. Nesse caso, o futuro desta quarentena será um curto intervalo antes das quarentenas futuras. (SANTOS 2020, p.32 -grifos nossos).

 

REFERÊNCIAS

ROSSETTI, Hugo. Salut para la odontología. Argentina, 1995. ISBN: 950-43-6453-5

SANTOS, Boaventura de Sousa. A Cruel Pedagogia do Vírus. Portugal: Almedina, 2020. ISBN 978-972-40-8496-1

Colunistas em ordem de imagem:

*Patrícia Suguri Cristino – Cirurgiã-dentista e Mestre em Dentística (FORP-USP), Especialista em Saúde Coletiva (UFMT), Doutoranda em Psicologia (IPS-UFBA). Professora Adjunta na Faculdade de Odontologia da UFBA (FOUFBA)  e na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP). Contato: patriciasgcristino@gmail.com

**Mônica Moura da Costa e Silva- Cirurgiã-dentista (UFBA), Graduanda em Direito (UFBA), Especialista em Medicina Social (ISC-UFBA), Mestre em Saúde Comunitária (ISC-UFBA). Sanitarista (licenciada) da Sesab. Professora Assistente na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP). Contato: monica.costaesilva@gmail.com