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*Ingra Mendes de Medeiros

A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda o aleitamento materno até os 2 anos ou mais, sendo de forma exclusiva até os primeiros 6 meses de vida. A amamentação traz muitas vantagens para a mãe e o bebê; além dos benefícios econômicos, psicológicos, imunológicos e nutricionais, a amamentação é responsável pelo crescimento e desenvolvimento muscular e ósseo adequados1.

Na cavidade oral de bebês, algumas características são peculiares desse período. No nascimento, a cavidade bucal é edêntula2, entretanto, dentes natais (presentes ao nascimento) e neonatais (irromperam até os 30 dias de vida)3 podem estar presentes e, em alguns casos, interferir na amamentação.

No recém-nascido, a mandíbula assume uma posição mais distal em relação à maxila, produzindo uma aparência de micrognatia que é considerada padrão, o que pode favorecer o parto normal4. A articulação temporomandibular (ATM) nesta fase, apresenta uma cavidade articular quase plana e cabeça da mandíbula com forma irregular3.

Os movimentos realizados pela mandíbula, durante a amamentação, estimulam o avanço mandibular, a cavidade articular vai ganhando profundidade e o côndilo adquire uma forma mais definida6,3.

Na linha média do lábio superior de recém-nascidos, uma saliência arredondada pode ser encontrada, denominada como calo de amamentação (“sucking pad callous”) e, está associada com a amamentação constante7.

No recém-nascido o reflexo de sucção é a primeira atividade muscular coordenada e, durante a sucção nutritiva, enquanto a língua está alta, o mamilo é comprimido de forma uniforme da ponta até a base. Quando a língua abaixa, o mamilo se expande, permitindo que o leite flua para o espaço intraoral8.

O frênulo lingual é uma membrana mucosa que conecta a língua ao assoalho bucal e está relacionado aos movimentos da língua e suas funções, como fonação, mastigação, deglutição, amamentação, e outras, como problemas sociais8,9.

Anquiloglossia é popularmente conhecida como “língua presa” e, na definição clássica, ocorre quando a fixação do frênulo está alterada, restringindo os movimentos da língua9. Essa alteração congênita tem natureza hereditária e o sexo masculino parece ser mais acometido10,11. Na revisão sistemática encontrou-se uma prevalência de 8% de anquiloglossia em bebês com menos de 1 ano11.

No Brasil, o exame se tornou obrigatório em maternidades e hospitais em 2014, após aprovação da Lei Federal 13.002 de 2014. Existem vários protocolos de avaliação para anquiloglossia10,11,12.

A fixação do frênulo, tanto na língua quanto no assoalho da boca, não se modifica ao longo do tempo10; por isso, o diagnóstico precoce é importante para um tratamento adequado. A frenotomia tem sido indicada para o tratamento de bebês com anquiloglossia, e a frenectomia para o tratamento de crianças maiores e adultos3,9.

A língua é fundamental no desenvolvimento craniofacial e deve estar acoplada no palato, em repouso, favorecendo o correto desenvolvimento da maxila e um padrão de respiração nasal adequado7,10.

Nesse sentido, estudos relacionam a anquiloglossia com o estreitamento de vias áreas superiores, palato profundo, maxila estreita, maloclusão e um padrão de respiração bucal. Pacientes respiradores bucais podem ter várias alterações estruturais e funcionais, incluindo dificuldades de aprendizagem e uma associação com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). 3,13 Diante dessa relação, o frênulo lingual alterado tem sido associado também como fator de risco para a Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOP)14. Entretanto, mais estudos são necessários para fortalecer a evidência científica.

O aleitamento artificial com mamadeira, além do uso de bicos artificias, tem sido relacionado com a presença de maloclusões dentárias e esqueléticas3. Na revisão sistemática encontrou-se que o uso de bicos artificias podem ser associados com uma menor duração da amamentação15, levando a confusão de bicos e desmame precoce.

Apesar da tendência crescente do aleitamento materno no Brasil, esses índices ainda são considerados insatisfatórios pela OMS16. Profissionais de saúde têm papel essencial no aleitamento materno:  acolhendo, orientando e incentivando a amamentação. Entretanto, é importante salientar que existem algumas contraindicações e limitações maternas e/ou neonatais, nesses casos um apoio multidisciplinar é indispensável.

Lembrando, cada mãe/bebê é única(o), uma rede de apoio fortalecida e políticas públicas que favoreçam o aleitamento materno são indispensáveis para assegurar a amamentação.

 

  1. American Academy of Pediatric Dentistry. Perinatal and infant oral health care. The Reference Manual of Pediatric Dentistry. Chicago, III: American Academy of Pediatric Dentistry. 2020; 252-6.
  2. Esenlik E, Hilal ES¸ lperi SG¸ AliMalas H. An Investigation Into the Morphometric Developments of the Maxillary and Mandibular Arches During the Fetal Period. Cleft Palate Craniofac J. 2012; 49:1.
  3. Guedes-Pinto AC. Odontopediatria – Fundamentos em Odontologia. Odontopediatria. 8ª ed. São Paulo: Santos; 2010.
  4. Mota RS, Cardoso VAC, Bechara CS, Reis JGC, Maciel SM. Analysis of mandibular dimensions growth at different fetal ages. Dental Press J Orthod. 2010; 15(2):113–21.
  5. Sánchez-Molins, Carbó JG, Gaig CL, Ustrell JM. Comparative study of the craniofacial growth depending on the type of lactation received. Eur J Paediatr Dent. 2010; 11(2):87-92.
  6. Thariat J, Lacassagne A, Roth V, Marcy PY. Sucking Pads in a Full-Term Newborn. J Pediatr 2011; 158:166.
  7. Harari D, Redlich MMiri S, Hamud TGross M. The effect of mouth breathing versus nasal breathing on dentofacial and craniofacial development in orthodontic patients. Laryngoscope. 2010; 120(10):2089-93.
  8. Lau C, Suzart DD, Carvalho ARR. Development of suck and swallow mechanisms in infants. Ann Nutr Metab. 2015;66 Suppl 5(5):7-14.
  9. Messner AH, Walsh J, Rosenfeld RM, Schwartz SR, Ishman SL, Baldassari C, et al. Clinical Consensus Statement: Ankyloglossia in Children. JAMA Otolaryngol Head Neck Surg. 2020; 162(5): 597–611.
  10. Martinelli RLC, Marchesan IQ, Berretin-Felix G. Estudo longitudinal das características anatômicas do frênulo lingual comparado com afirmações da literatura. Rev CEFAC. 2014; 16(4):1202-1207.
  11. Marchesan IQ. Protocolo de avaliação do frênulo da língua. Rev CEFAC. 2010; 12(6):977-989.
  12. Ingram J, Johnson D, Copeland M, Churchill C, Taylor H, Emond A. The development of a tongue assessment tool to assist with tongue-tie identification. Arch Dis Child Fetal Neonatal. 2015; 100(4):F344-8.
  13. Ribeiro GCA, Santos ID, Santos ACN, Paranhos LR, César CPHAR. Influence of the breathing pattern on the learning process: a systematic review of literature. Braz J Otorhinolaryngol. 2016; 82(04): 466-478.
  14. Brożek-Mądry E, Burska Z, Steć Z, Burghard Short lingual frenulum and head-forward posture in children with the risk of obstructive sleep apnea. Int J Pediatr Otorhinolaryngol. 2021; 144(5):110699.
  15. Buccini GS, Pérez-Escamilla R, Paulino LM, Araújo CL, Venancio SI. Pacifier use and exclusive breastfeeding interruption: systematic review and meta-analysis. Matern Child Nutr. 2017; 13(3):e12384.
  16. Boccolini CS, Boccolini PMM, Monteiro FR, Giugliani ERJ, Venancio SI. Tendência de indicadores do aleitamento materno no Brasil em três décadas. Rev Saude Publica. 2017; 51:108.

 

Colunistas

*Ingra Mendes de Medeiros

Residência Integrada Multiprofissional em Saúde HUPES/UFBA; especialista em Odontopediatria IPPEO; mestranda do Programa de Odontologia e Saúde da FOUFBA.

Viviane Almeida Sarmento

Doutorado em Odontologia PUCRS; habilitada em Odontologia Hospitalar; professora titular da UEFS; coordenadora da Comissão de Residência Multidisciplinar e em Área Profissional da Saúde da UFBA.