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Gastroparesia diabética é uma forma de neuropatia autonômica caracterizada por atraso no esvaziamento gástrico, na ausência de causas mecânicas. É uma complicação crônica do diabetes que causa prejuízo na qualidade de vida e pode associar-se a dificuldades no controle da glicemia. Acomete mais pacientes com duração do diabetes superior a 10 anos e com outras complicações microvasculares, sendo mais comum no diabetes tipo 1.

Os sintomas mais comuns são náusea, plenitude gástrica, distensão e dor abdominal e vômitos. A severidade varia de leve, que melhora com medidas dietéticas, a formas graves, com anorexia e perda ponderal, que necessitam de intervenções cirúrgicas. Muitos pacientes com gastroparesia podem apresentar-se assintomáticos, mas com dificuldade para controle da glicemia devido a absorção errática dos alimentos e/ou dos hipoglicemiantes orais.  O uso de sulfoniureia nestes pacientes associa-se a maior incidência de hipoglicemias.  Os análogos de GLP1 são contraindicados por atuarem retardando o esvaziamento gástrico, enquanto o uso de metformina e acarbose pode ser difícil pelos sintomas gastrointestinais que ocasionam frequentemente. Inibidores de SGLT2 e da enzima DDP-IV não foram estudados nesta população específica. Considerando também que a duração do diabetes é longa em pacientes com esta complicação, será frequentemente indicado o tratamento com insulina.

Em pacientes insulinizados, há lentificação na absorção dos alimentos enquanto a absorção da insulina é preservada, ocasionando variabilidade glicêmica no período pós prandial. Observam-se picos tardios de hiperglicemia ou hipoglicemias pós prandiais devido ao pico de ação da insulina ultrarrápida ocorrer mais precocemente do que o aumento da glicemia pós prandial.  As variações diárias nas escolhas dos alimentos e o esvaziamento gástrico destes (e o tempo para absorção) são desconhecidos em pacientes com gastroparesia.  Hipoglicemias imprevisíveis podem tornar o controle glicêmico desafiador, sendo imprescindível a monitorização glicêmica domiciliar nestes pacientes, frente ao perfil instável de glicemias. Quando possível, o uso do sistema flash de monitorização contínua parece associar-se a uma otimização do controle glicêmico nesta população.

Em pacientes em uso de esquema basal/bolus, as seguintes condutas podem ser adotadas: 1) prescrição de insulina regular em substituição aos análogos de insulina de ação ultrarrápida; 2) usar a insulina bolus após as refeições; 3) fracionar a insulina bolus em 2 aplicações com intervalo de 4 horas  após as refeições (exemplo, fazer 2 aplicações de 3 unidades em substituição a um aplicação prandial de 6 unidades).

Na avaliação diagnóstica, faz-se necessário excluir outras patologias gástricas ou metabólicas ou uso de medicamentos que contribuam para retardo no esvaziamento gástrico. Alguns exames úteis nesta avaliação inicial são a ultrassonografia de abdômen, endoscopia digestiva alta, TSH, cálcio e fósforo. Deve ser questionado o uso de anticolinérgicos, opiáceos e antidepressivos como amitriptilina. A cintilografia de esvaziamento gástrico é o padrão ouro para o diagnóstico.

 

Referências:

 

Koch, K. L., & Calles-Escandón, J. (2015). Diabetic Gastroparesis. Gastroenterology Clinics of North America, 44(1), 39–57. doi: 10.1016/j.gtc.2014.11.005

Young CF, Moussa M, Shubrook JH. Diabetic Gastroparesis: A Review. Diabetes Spectr. 2020 Aug;33(3):290-297. doi: 10.2337/ds19-0062.

 

Referência técnica:

Drª Roberta Lordelo Lobo – Médica endocrinologista, pela FMUSP, CRM 15693. Atua na CODAR/ Centro de Diabetes em Endocrinologista do Estado da Bahia (Cedeba).