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*Ednaldo de Jesus Filho

Em 2014, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), em sua quinta versão1, estabeleceu a expressão atual de Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Por ser definido como uma alteração do neurodesenvolvimento, suas características devem se apresentar precocemente. As manifestações dependem da gravidade da condição, do nível de desenvolvimento e da idade cronológica. Daí o uso do termo espectro1.

A Organização das Nações Unidas (ONU) considera que aproximadamente 1% da população pode ser acometida no mundo todo. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS) e para a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), no planeta 01 em cada 160 crianças tem o transtorno, totalizando 70 milhões de pessoas no mundo e aproximadamente 2 milhões de pessoas no Brasil2,3.

As evidências de risco aumentado para alterações orais são conflitantes para indivíduos com TEA. No entanto, não existe uma relação específica e direta entre esta condição e as alterações na saúde bucal4.

Considera-se que os autistas estejam sob maior risco de desenvolvimento da doença cárie e periodontal, haja vista são comuns as dificuldades para controle da placa bacteriana, a não-aceitação de objetos dentro da boca, incluindo a escova dental,  uma dieta cariogênica e manutenção de alimentos na cavidade bucal por longos períodos (especialmente em região de vestíbulos) 5.

Os medicamentos comumente utilizados possuem diversos efeitos colaterais e muitos desses com manifestações bucais, principalmente a xerostomia, associada a quase todas as medicações6.

A complexidade relacionada às barreiras para o atendimento odontológico de pessoas com TEA está relacionada às questões comportamentais, emocionais, de distúrbios de desenvolvimento, à incapacidade de comunicação e à falta de condições financeiras da família.6

A aversão ao tratamento odontológico pode ser menor se o paciente for condicionado desde pequeno com o ambiente, o acesso a uma abordagem preventiva e a um modelo educacional personalizado7.

O TEA é uma questão complexa e nenhuma tecnologia trará uma resolução em sua totalidade. Nesse sentido, no campo da saúde, o processo de cuidado deve ser visto como plural, por necessitar de uma rede integral que disponha de várias tecnologias, e singular, por ser construído a partir das necessidades e desejos do sujeito8.

Mesmo que o SUS viabilize uma gestão da saúde bucal, enquanto política pública, a partir de um sistema gratuito e integral, de caráter universal, o que se denota é uma importante desconfiança sobre a capacidade deste sistema em absorver as demandas desta população.

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Referências

  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5.ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
  • Maenner MJ, Shaw KA, Baio J, et al. Prevalence of Autism Spectrum Disorder Among Children Aged 8 Years – Autism and Developmental Disabilities Monitoring Network, 11 Sites, United States, 2016. MMWR Surveill Summ. 2020; 69 (SS-4): 1-12.
  • OPAS/OMS BRASIL. Folha Informativa – Transtorno do Espectro Autista.Abr.2017.Disponívelem:https://www.paho.org/bra/index.php?option=comcontent&view=article&id=5651:folha-informativa-transtornos-do espectroutista&Itemid=839. Acesso em: 08 jan 2019.
  • Lam PP, Du R, Peng S, McGrath CP, Yiu CK. Oral health status of children and adolescents with autism spectrum disorder: A systematic review of case-control studies and meta-analysis. Autism. 2020;24(5):1047-1066.
  • Du RY, Yiu CKY, King NM. Oral Health Behaviours of Preschool Children with Autism Spectrum Disorders and Their Barriers to Dental Care. Journal of Autism and Developmental Disorders. 2019; 49:453-459.
  • Haddad AS. Odontologia para pacientes com necessidades especiais. São Paulo: Santos; 2007.
  • Ferrazzano GF, Salerno C. Autism spectrum disorders and oral health status: review of the literature. EuropEan Journal of paEdiatric d 2020; 21(1): 9-12.
  • Silva LS, Furtado LAR. O sujeito autista na Rede SUS: (im)possibilidade de cuidado. Fractal: Revista de Psicologia. 2019; 31(2):119-129.

 

*Ednaldo de Jesus Filho

Especialista e mestre em Endodontia (ABE-BA e Universidade de Taubaté-SP)

Doutorando do Programa de Odontologia e Saúde da FOUFBA

Dentista clínico da Estratégia de Saúde da Família em Salvador