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Já sabemos que a doença causada pelo novo coronavírus (COVID 19) vem causando grave impacto também na saúde mental, pois além do isolamento social, podem existir as perdas de pessoas próximas em curto espaço de tempo. Sofrimento agravado pelas dificuldades para realização de rituais de despedida e cerimônias funerárias, decorrente de ações sanitárias, impactando na dimensão social do luto. (1) E mesmo quando não há perdas diretas, as pessoas podem expressar sofrimento por sensibilizar-se aos que foram diretamente afetados pela pandemia. Todo esse contexto de terminalidade, morte e luto demonstra a importância de intervenções psicológicas, afim de que sejam discutidas estratégias de adaptação para aumentar as possibilidades de despedida e que contribuam com a ressignificação dos aspectos relacionados à perda. Dessa forma, podemos reduzir os casos de luto complicado, transtornos pós-traumáticos e quadros depressivos. (2) Para apoiar da melhor maneira, é importante reconhecer que o processo de morte e luto não é igual para todos. Além da diversidade étnica, religiosa e cultural, existe uma vulnerabilização ainda maior entre a população indígena e negra, decorrente de iniquidades socioeconômicas.

Em matéria intitulada “Senhoras das dores”, o jornal Metrópole (3) traz uma reflexão muito importante sobre racismo institucional – o qual não se inaugurou no atual contexto de pandemia. O texto conta histórias de mães de jovens – em sua maioria negras – que foram assassinados e também tiveram o trauma de perder alguém inesperadamente. O que não passou a ocorrer a partir da pandemia, para boa parte dessas famílias. Para a população negra, a crise gerada pela pandemia se soma às repercussões produzidas pelo racismo estrutural como hiperexposição à morte, pelo risco de morte pela polícia, pelo tráfico, pela miséria, pelo acesso reduzido aos cuidados em saúde e a constante impossibilidade de viver plenamente os processos de luto (4) É necessário falar também da experiência sobre a morte para a população indígena, a qual é diversa entre seus povos. Para algumas etnias, como o caso dos Yanomamis, é inadmissível enterrar o corpo de um de seus integrantes, estes devem ser cremados em rituais coletivos.(5) Justino Tuyuka relata que a Covid atinge as raízes das cerimônias rituais fúnebres de muitos povos indígenas, incluindo algumas comunidades Yanomamis.(6) Com a imposta impossibilidade de manter as tradições de festas com presença de muitas pessoas, aproveitamento dos ossos e cinzas devido aos protocolos de biossegurança, há a urgente necessidade de se debruçar sobre o tema para compreensão real dos riscos e cessar com a violação de direitos, respeitando a cultura destes povos.(5,6) Devido aos riscos de contágio foi necessária restrição de pessoas nos velórios e sepultamentos das vítimas de Covid-19. Sendo assim, outras forma de despedidas e homenagens se fazem necessárias, exemplo são os projetos que evocam a memória destas pessoas como santinho.com e inumeráveis.com.br (7).

Na página do InformaSUS encontramos exemplos de estratégias adaptativas para os rituais que podem ser pertinentes para algumas culturas. (1) Estas perdas podem gerar grande sofrimento, sendo importante, se possível, entrar em contato com os sentimentos trazidos pelo luto. Sendo as unidades de atenção básica uma das referências para estas situações, é essencial os profissionais se atentarem para estas demandas e estarem disponíveis para diálogo e acolhimento. (7) Deve-se compreender quem são as pessoas atendidas, quais as situações vivenciam e estão expostas, sua cultura, crenças, rede de apoio, familiar, quais seus desejos, e outras informações essenciais para um cuidado individualizado e centrado na integralidade desta pessoa.

 

Referências:

  1. BOMBARDA, Tatiana Barbieri. Luto e pandemia: adaptação de despedidas às restrições impostas pela COVID-19. INFORMASUS Ufscar. 18 de junho de 2020. Disponível em: https://www.informasus.ufscar.br/luto-e-pandemia-adaptacao-dedespedidas-as-restricoes-impostas-pela-covid-19/. Acesso em: 30 de julho de 2020.
  1. CREPALDI, M. A., Schmidt, B., Noal, D. S., Bolze, S. D. A., & Gabarra, L. M. (2020). Terminalidade, morte e luto na pandemia de COVID-19: demandas psicológicas emergentes e implicações práticas. Estudos de Psicologia (Campinas), 37, e200090. https://doi.org/ 10.1590/1982-0275202037e200090. Acesso em: 30 de julho de 2020.
  1. MENEZES, Leilane. Senhora das dores. As mães que a violência policial despedaçou. Metrópoles. 15/09/2018 5:25, atualizado em 22/10/2019 15:30. Disponível em: https://www.metropoles.com/materias-especiais/maes-queperderam-seus-filhos-por-violencia-policial-lutam-por-justica. Acesso em 24 de julho de 2020.
  1. TAVARES, Jeane Saskya Campos. “Falando de perda: hoje estou mal, espero que você entenda”. LE MONDE Diplomatique Brasil, Edição 156, 1 de julho de 2020. Disponível em: https://diplomatique.org.br/falando-da-perda-hoje-estou-mal-esperoque-voce-entenda/. Acesso em: 24 de julho de 2020.
  1. BRUM, Eliane. Mães Yanomami imploram pelos corpos de seus bebês. El País Brasil. 24 de junho de 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020- 06-24/maes-yanomami-imploram-pelos-corpos-de-seus-bebes.html. Acesso em: 24 de julho de 2020.
  1. REZENDE, Padre Justino Sarmento Tuyuka. Covid-19: Enterro e cremação dos falecidos indígenas. Instituto Socioambiental. 14 de abril de 2020. Disponível em: https://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-isa/covid-19-enterro-e-cremacaodos-falecidos-indigenas. Acesso em: 10 de agosto de 2020.
  1. SBMFC – Orientações para favelas e periferias – #COVID19NASFAVELAS –– GT de Saúde da População Negra, 2 a edição – 30 de abril de 2020. Disponível em: https://www.sbmfc.org.br/wp-content/uploads/2020/07/orientacoes-para-favelas-eperiferias_2-edicao.pdf. Acesso em 30 de julho de 2020.