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Mariangela Silva de Matos* e-mail: marismatos@yahoo.com.br

O exercício profissional na área de saúde é gerador de satisfação e prazer, tanto pelo status da sua representação social, como pelo sentimento de cuidar de pessoas para propiciar qualidade de vida e reduzir o sofrimento. Por outro lado, o ato de cuidar é também gerador de estresse e angustia, uma vez que a natureza desse trabalho produz um alto nível de responsabilização sobre a vida humana, além do frequente sentimento de impotência diante da complexidade que envolve o ato de cuidar.
Muitos estudos têm apontado para uma alta prevalência de distúrbios psicossociais entre os profissionais de saúde. Assim, Simões e colaboradores (2007) chamam a atenção para alguns fatores que podem ser considerados como agravantes para esse grupo, dentre eles: a dimensão subjetiva do profissional para lidar com o sofrimento humano; os baixos salários; as condições de trabalho; a jornada dupla ou tripla, ocasionando sobrecarga de atividades e cansaço; a dificuldade na conciliação da vida familiar e profissional; o contato constante com pessoas sob tensão; a falta de ambiente adequado e de recursos humanos e materiais; o desgaste físico, psicológico e emocional; e a falta de motivação para o trabalho.
Ainda que seja um resultado que não pode ser extrapolado para o total dos estudantes das áreas referidas, Aguiar (2007) registrou, em seu estudo, uma prevalência de sintomas depressivos em 23,7% dos estudantes de Medicina e em 28,3% dos estudantes de Odontologia.
Desse modo, nós, profissionais de saúde, necessitamos refletir coletivamente sobre as condições de vida e trabalho produtoras de doença às quais estamos submetidos. A partir dessa reflexão, é fundamental que possamos internalizar o conceito de que o cuidador necessita de (auto)cuidado. Não somos super-heróis! Somos seres humanos que enfrentam um alto nível de vulnerabilidade na vida e no exercício profissional e, sendo assim, precisamos trilhar um caminho que preserve a nossa integridade física, emocional e espiritual. Além de cuidar do corpo, outras dimensões precisam ser observadas, tais como: buscar o auto-conhecimento; reconhecer as suas próprias limitações e fragilidades; identificar o seu grau de satisfação com o trabalho que realiza; lutar por melhores condições de trabalho; e definir estratégias de (auto)cuidado. Nessa perspectiva, é possível encontrarmos uma forma própria de alcançar o equilíbrio interno acessando o(s) tipo(s) de prática(s) integrativa(s) e complementar(es) que mais nos fortaleçam.
Dispomos, hoje, de inúmeras práticas integrativas voltadas para o cuidado com a saúde. Dentre elas, podemos destacar: a medicina tradicional chinesa, a acupuntura, a homeopatia, a meditação, a yoga, o reiki, a Terapia Comunitária Integrativa (TCI), a Programação Neuro Linguística (PNL), a hipnoterapia, a biodança, a musicoterapia, a microfisioterapia e as constelações familiares. Embora, nem todas sejam adotadas pelo SUS, as políticas vigentes nos últimos anos têm ampliado, cada vez mais, a inclusão dessas práticas. Já na iniciativa privada assistimos uma difusão de forma crescente e, para ilustrar essa visão, chamamos a atenção para o Hospital Albert Einsten — hospital de referência mundial — o qual adota o Reiki, a Terapia Floral, os grupos de meditação para os pacientes, a yoga e a acupuntura.
Ainda que todas essas práticas, isoladas ou associadas, tragam inúmeros benefícios para a saúde humana, eu destaco, aqui, a meditação por considera-la eficaz e passível de ser desenvolvida de forma autônoma quando passamos a adotá-la como hábito. Para isso, precisamos desmistificar algumas crenças limitantes referente à meditação que, muitas vezes, afastam as pessoas dessa ferramenta já legitimada pela ciência. Uma delas é a de não se sentir capaz de silenciar a mente! Mas quem falou que a mente deve ser silenciada? O exercício da meditação é justamente não se prender aos pensamentos que insistem em chegar, é retirar a sua energia porque sem energia, eles vão perdendo a sua força. É, também, aprender a desenvolver a habilidade de estar no presente. Com o tempo e a prática frequente vamos conseguindo domar a efervescência da mente. Outra crença é de que apenas os “iluminados” conseguem adotar essa prática; longe disso, qualquer pessoa que se dedique a esse treinamento mental pode se beneficiar dos impactos que ele produz em nossa saúde por ser capaz de promover uma maior integração entre mente, corpo e espirito.
A meditação no Oriente é entendida como uma busca espiritual, já no Ocidente ela ganha força no campo da saúde porque é aceita como uma prática de auto-regulação do corpo e da mente podendo trazer benefícios como redução dos sintomas de estresse, melhora da ansiedade, aumento do foco e atenção e ativação do córtex pré-frontal esquerdo, estimulando os afetos positivos e a capacidade de resiliência (Menezes e Dell’Aglio, 2009)).
Eu vejo a meditação, tanto como prática espiritual, como auto-regulatória porque, como nos adverte Guerreiro, quando a ciência é referenciada como suficiente para explicar o humano, ela nos tira o mistério do SER. E o que é o ser, senão a integração entre as dimensões física, mental, emocional e espiritual?
O nosso convite é que, por meio das práticas integrativas e complementares, possamos despertar o curador interno que existe em cada um de nós, de modo que, cada pessoa possa escolher livremente aquelas que mais ressoam em si, com base nos conhecimentos vigentes e na própria experiência.

Referências

Aguiar, S. M. Pevalência de sintomas de estresse e de depressão nos estudantes de medicina e de odontologia. [Dissertação]. Mestrado em Saúde Coletiva da Universidade de Fortaleza – UNIFOR. 2007.

Menezes e Dell’Aglio. Os Efeitos da Meditação à Luz da Investigação Científica em Psicologia: Revisão de Literatura. Psicologia Ciência e Profissão. n.29, v.2, p. 276-289, 2009.
Simões et al. A humanização do atendimento no contexto atual de saúde: uma reflexão. REME – Rev. Min. Enf. v.11, n.1, p. 81-85, 2007.

*Mariangela Silva de Matos– Cirurgiã-Dentista, Mestre em Odontologia e doutora em Educação – Professora aposentada da FOUFBA
Terapeuta – Reiki, Florais de Bach, Terapia Comunitária Integrativa e Constelações Familiares.