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Sandra Maria Ferraz Mello* E-mail para contato: sandramello@ufba.br

Recentemente, toda a população mundial foi apresentada ao vírus SARS-CoV-2, denominado Coronavírus, que em pouco tempo se alastrou, tornando-se uma pandemia, cuja maior característica é a disseminação extremamente rápida, elegendo como público mais vulnerável, as pessoas idosas, que no Brasil são aqueles indivíduos com idade acima de 60 anos. A adoção de medidas preventivas como o distanciamento/isolamento social (Portaria n° 454 do Ministério da Saúde), “etiqueta respiratória”; higienização frequente das mãos com água e sabão ou álcool gel a 70%, uso de máscaras, identificação e isolamento respiratório dos acometidos pelo vírus, se tornaram exigências protetivas da sociedade, prevenindo um colapso no sistema de saúde.

Esta nova doença, conhecida como COVID-19, apresenta um comportamento semelhante ao de uma gripe comum, podendo evoluir para a forma grave e até mesmo fatal, despertando grande preocupação e cuidados da população e da comunidade científica. Inicialmente, a transmissão da infecção foi pontual e identificada mas com o seu progresso, tornou-se uma transmissão comunitária ou sustentada, quando não é possível rastrear a origem da infecção, indicando que o vírus circula entre pessoas, sem evidências de contaminação, ou seja assintomáticas, embora, potencialmente, transmissivas.

Idosos – População de Risco

 Desta forma, a população idosa que pela própria fisiologia do envelhecimento humano apresenta redução no metabolismo, maior susceptibilidade às infecções, diminuição da capacidade funcional dos órgãos e sistemas, pode, ainda, na sua maioria, cursar com comorbidades como diabetes melito, hipertensão arterial, cardiopatias, doenças pulmonares, renais, neurológicas e oncológicas, portadores de imunossupressão, portadores de síndrome de fragilidade, entre outras. Ressalta-se que a função imune pode variar entre as pessoas idosas, mas em todas observa-se uma redução da capacidade reprodutiva das células T, tornando-as mais vulneráveis às infecções, justificando integrarem o grupo de risco para a COVID-19.

Os idosos compõem cerca de 18% da população brasileira, entretanto num país em que a juventude constitui-se em mito e valor no mundo moderno, orientando a percepção de vida, ser idoso pode significar, apenas, o fim do ciclo vital, possibilitando o gerenciamento de sua vida por outros. O oposto ocorre com os profissionais que trabalham com idosos, valorizando e respeitando suas vontades, objetivando promover bem estar, inclusão na sociedade e na saúde, de acordo com os princípios do SUS, sobrepondo a universalidade ao utilitarismo, colocado em algumas situações durante esta pandemia. Afinal, “a saúde é direito de todos e dever do Estado”.

ODONTOGERIATRIA

Assim, a Odontogeriatria, especialidade odontológica voltada para a atenção aos idosos, terá que fazer uso de medidas mais rigorosas para prestar o atendimento odontológico a estes indivíduos com qualidade e segurança, a começar pelo agendamento, evitando que o paciente fique em contato com outros na sala de espera, respeitando o distanciamento social, em torno de 2m.

A realização de procedimentos odontológicos, com critérios rigorosos de biossegurança, para todos os pacientes já é bem consolidado na Odontologia evitando-se a transmissão de doenças infectocontagiosas, de modo geral. Vale ressaltar que o consultório odontológico é um espaço seguro de cuidados à saúde. Costumeiramente, os cirurgiões-dentistas, além da imunização regular, devem se vacinar contra a Influenza (tipos A, B e C), reforçar as medidas de precaução padrão, durante os procedimentos odontológicos adequando-se à nova situação, usando protetores faciais (face shield) sobre máscara N95 ou PFF2, continuar a utilizar luvas de procedimento, avental impermeável de mangas longas, óculos de proteção, aplicar barreiras de proteção nos equipamentos (PVC) e aumentar os cuidados na retirada e descarte dos EPIs. Lavar as mãos frequentemente com água e sabão em torno de 20 segundos, respeitando os 5 momentos de higienização, usar um desinfetante para as mãos à base de álcool 70% em restrição da água e sabão, limpar e desinfetar objetos e superfícies tocados com frequência, também fazem parte da rotina odontológica. Após cada atendimento, realizar a desinfecção de todos os ambientes de trabalho, rigorosa limpeza das superfícies e do chão (Hipoclorito de Na), pois o vírus pode ser transportado pelos aerossóis e sobreviver nessas superfícies por mais de nove dias.

Em caso de urgências odontológicas em idosos, o cirurgião-dentista deve ater-se inicialmente, para os possíveis sintomas da virose que podem se manifestar por meio de febre (>37,8ºC), sintomas respiratórios (tosse, dificuldade para respirar, produção de escarro, congestão nasal ou conjuntival, dificuldade de deglutir, dor de garganta, coriza, saturação de O2 <95%, sinais de cianose, batimento das asas nasais, tiragem intercostal, dispneia, etc.) e sintomas inespecíficos (fadiga, mialgia/artralgia, dor de cabeça, calafrios, gânglios linfáticos aumentados, diarreia, náusea, vômito, desidratação e inapetência). Analisar os demais diagnósticos diferenciais pertinentes e em seguida, por meio de anamnese detalhada, certificar-se de comorbidades e medicamentos em uso contínuo, avaliar e determinar o adequado manejo clínico, incluindo a possibilidade de encaminhar o paciente idoso para unidade hospitalar.

Vale ressaltar que a higiene bucal adequada torna-se uma importante ferramenta contra a Covid-19, uma vez que a porta de entrada da infecção é o trato respiratório superior, boca (dentes, gengivas, periodonto e língua), faringe (garganta) e pulmões, onde podem ocorrer os maiores agravos resultantes da infecção. Em casos extremos de infecções pulmonares, muitas bactérias oportunistas coabitam a cavidade bucal, presentes na saburra lingual e no biofilme periodontopatogênico, principalmente dos molares, levando a necessidade de ventilação mecânica e, muitas vezes com desfechos clínicos sombrios.

Assim sendo, além de todos os cuidados gerais divulgados pelas equipes médicas, cabe ao cirurgião-dentista informar ao paciente idoso, ou seus cuidadores, a maneira correta e efetiva da higiene bucal  e das próteses:

– Limpeza da língua – iniciar a higienização pela com raspadores de língua ou com escova de cerdas macias a partir da parte mais posterior da língua para o ápice (ponta);

– Fio dental – uso correto e rotineiro do fio dental (antes da escovação com dentifrício);

– Escovação Dental com escova de cerdas macias e brancas (evitar as cerdas coloridas para visualizar sangramento – sinal clínico de doença periodontal) com dentifrício contendo Flúor ou agentes terapêuticos;

– Enxaguantes bucais (antissépticos bucais),ajudam na limpeza bucal diária.

– Próteses Fixas – devem ser escovadas da mesma forma que os dentes com o cuidado adicional de uso de passa fio.

– Próteses Parciais Removíveis e Totais – devem ser removidas da boca para serem higienizadas com escova de dentes específicas para prótese (cerdas mais grossas e mais rígidas), cremes dentais pouco abrasivos, evitando assim desgaste na parte de resina acrílica.

-Substância auxiliar na limpeza das próteses:

  • Hipocloritos – utilizados na higienização de próteses pela capacidade de limpeza da placa bacteriana, ação bactericida e fungicida. Pode provocar clareamento da resina acrílica ou corrosão do metal. Recomenda-se submergir as próteses numa solução de 15 ml de hipoclorito de sódio com concentração de 2-3% (água sanitária convencional) diluídos em 300 ml de água por, no máximo, 15 a 20 minutos diários, para próteses acrílicas e para as próteses parciais removíveis metálicas, por 10 minutos. Após o tempo indicado, as próteses totais e parciais devem ser enxaguadas antes de recolocá-las na boca e imersas em água fria durante toda a noite.

Ao finalizar a higiene bucal, recomenda-se a limpeza das escovas dentais e dos higienizadores de língua colocando-os imersos em enxaguatórios bucais (sem enxaguar) ou em solução desinfetante como água oxigenada (Peróxido de hidrogênio),10 volumes, por cerca de 15 minutos, enxaguando, em seguida, em água corrente. Outra opção seria colocar a escova submersa em uma vasilha com água fervente por, no máximo, três minutos, para evitar o risco de danificar ou derretê-la. Coloque-a num suporte na posição vertical para secar, em local adequado, para evitar a reinfecção após cada uso.

Diante do exposto, ressalta-se que o ambiente do consultório odontológico pode ser profícuo vetor de disseminação do Coronavírus pelos aerossóis produzidos pelos equipamentos, pelas gotículas de saliva, espirro ou tosse, contato com secreções e superfícies ou objetos contaminados, seguido de toque na boca, nariz ou olhos, e até mesmo, contato com pessoas sem máscara e pessoas assintomáticas. Os cirurgiões-dentistas, cientes destes aspectos, sempre usaram recursos de biossegurança para evitar contaminação cruzada, dos seus pares e deles mesmos. Por conseguinte, diante do panorama atual, recomenda-se postergar os tratamentos odontológicos eletivos da população idosa, considerando a sua vulnerabilidade às infecções, e em prol da segurança e bem estar dos profissionais e seus pacientes.

 

Considerações Finais

O especialista em Odontogeriatria cuida do idoso desde o acolhimento com uma boa escuta, estabelecendo uma relação de confiança entre profissional e paciente, conhecendo a fisiologia do envelhecimento humano, as influências do meio, considerando a relação multidisciplinar pelas possíveis doenças crônicas existentes e que serão determinantes no plano de tratamento odontológico, individualizado. Portanto, durante a pandemia do Coronavírus, adiar um tratamento odontológico eletivo da pessoa idosa, também, é cuidar e um dos maiores cuidados em saúde se dá por meio de medidas preventivas que, neste caso, é respeitar o distanciamento social.

 

Referências consultadas

 Ministério da Saúde. Coronavírus – Covid 19. Abr.2020. Disponível em site:https://coronavirus.saude.gov.br. Acesso em 18/04/2020.

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  2. Campostrini, E. Odontogeriatria. Ed. Revinter, 2004. 265p
  3. Freitas Júnior, AC; Almeida, EOde; Antenucci, RMF; Gallo, AKG; Silva, EMMde.EnvelhecimentodoAparelhoEstomatognático:alteraçõesfisiológicaseanatômicas.RevistaOdontológicadeAraçatuba,v.29,n.1,p.47-52,janeiro/junho,2008
  4. Pedrazz, V. Coronavírus (COVID-19) – A Odontologia e seu papel fundamental na prevenção da disseminação e agravos da epidemia do coronavírus.Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Abr 2020. Disponível em https://www.forp.usp.br/?p=6296. Acesso em 21/04/2020.
  5. SBGG – Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Posicionamento sobre COVID-19. Atualização 15/03/2020
  6. Vendola,MCV;RoqueNeto,A.BasesClínicasemOdontogeriatria.Ed.Santos,2009.441p

 

Sandra Maria Ferraz Mello

Doutora em Processos Interativos dos Órgãos e Sistema – UFBA , Mestre em Odontologia – UFBA, Especialista em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais – CFO, Especialista em Gerontologia – UCSAL, Professora Adjunta da FO/UFBA. Professora do curso de Odontologia da Unime/LF.